É da opinião geral e uma realidade mundial a dificuldade que cada vez mais os apicultores têm em manter as abelhas vivas, saudáveis e produtivas.

São vários os problemas que nós apicultores enfrentamos diariamente, desde a varroa destructor, viroses letais, sub-nutrição, vespa velutina, instabilidade das condições meteorológicas (alterações climáticas), perda de pastagens naturais, pesticidas, etc., sendo vários os milhões de euros investidos no mundo em investigação apícola, sem retorno aparente para o apicultor, pois, quando seria expectável a minimização de alguns destes problemas, continua a existir uma perduração ou até mesmo intensificação dos mesmos.

Figura 1 – Apiário de produção Vale do Rosmaninho

Na ausência de apoios diretos à exploração apícola em Portugal (talvez sejamos caso único a nível europeu), são vários os desafios que enfrentamos anualmente, tentando de ano para ano superar alguns problemas de forma a tornar a nossa exploração o mais eficaz, eficiente e sustentável possível, no sentido de tornar esta atividade rentável.

Neste sentido, tudo temos feito na nossa exploração para atingir o maior sucesso possível (estudar, viajar pelo mundo em buscar de boa informação, etc.), onde junto com a nossa experiência, tentamos montar o puzzle do sucesso na apicultura, através do melhor maneio produtivo possível.

Desde o melhoramento genético da abelha autóctone, introdução de rainhas novas com boa genética, boa nutrição (através de um bom programa de alimentação), controlo eficaz das principais doenças (varroa e nosema ceranae), transumância para zonas com bom potencial apícola, boa localização dos apiários (zonas soalheiras), uso do poncho, etc., este ano decidimos apostar um pouco mais em eficiência térmica nas nossas colmeias.

Apesar de em 2016 já termos investido no Vale do Rosmaninho em ponchos de plástico, fruto da viagem que fiz ao Chile, com resultados muito interessantes ao nível do isolamento térmico (ver artigo “Uso da Técnica do Poncho” em https://valedorosmaninho.com/uso-da-tecnica-do-poncho/), este ano de 2021, e após uma viagem ao país Vasco, onde tive a oportunidade de dar uma formação e palestra a um grupo de apicultores, após uma apresentação do apicultor profissional Koldo Belasko, onde tivemos a oportunidade de discutir a importância da eficiência térmica nas colónias de abelhas, junto com todos os indicadores e experiência em torno deste tema, tomamos a decisão de voltar a insistir neste tema.

   Figura 2 – Blog Vale Do Rosmaninho

Antes de avançar é importante referir que a nossa experiência é referente ao clima mediterrâneo com verões quentes e secos (Castelo Branco), sendo este o período mais desfavorável para as nossas abelhas na zona onde nos encontramos, sendo neste período que muitas das colónias atingem a ausência de criação (cessão por completo atividade produtiva), uma vez que durante o inverno mantêm sempre alguma atividade e subsequentemente criação.

O USO DO PONCHO

Desde 2016 que usamos o poncho nas colmeias reversível com as seguintes vantagens:

  • De Inverno o plástico conserva o calor;
  • Menor consumo de reservas durante o Inverno;
  • De Verão conserva a humidade;
  • Não deixa desidratar as pastas proteicas;
  • Aperta os enxames fracos, de forma a que os mesmos sobrevivam com menos dificuldades;

O poncho que usamos, trata-se de um pedaço de plástico (manga de plástico duplo para agricultura, com 35cm X 45cm)(ver imagens), sendo seguramente uma evolução positiva na estabilidade biológica das abelhas, contudo, como sabemos o plástico não é um isolante térmico, acabando por continuar a exigir um grande esforço às abelhas por manter a temperatura, sendo prova disso que em muitas das colónias em pleno inverno, o própolis no topo dos quadros encontra-se rijo, bem como não se veem abelhas à superfície, sendo um indicador da necessidade de formação de cluster para gerar e manter a temperatura adequada.

     Figura 3 – Poncho em plástico

No seguimento desta experiência, em 2020, usamos como poncho em algumas colónias, telas isotérmicas de alumínio, onde, apesar de poucas com baixa representatividade, os resultados foram excelentes, tendo tomado a decisão de neste inverno de 2021/2022, colocar telas isotérmicas na totalidade de colmeias e núcleos.

Figura 4 – Poncho em tela de alumínio isotérmica

RESULTADOS DA TELA ISOTÉRMICA:

Figura 5 – Poncho isotérmico em colmeia reversível

Após dois meses da colocação das telas isotérmicas (entre o topo dos quadros e a prancheta), os resultados são muito interessantes, pois verificamos que as abelhas se mantêm encostadas ao poncho (indicador de boa temperatura), bem como o própolis encontra-se pastoso, pelo contrário, nas colmeias sem poncho ou com poncho de plástico, o própolis encontra-se rijo, sendo um bom bio-indicador sobre a saúde das colónias durante este período do ano.

Figura 6 – Própolis mole

 

Figura 7 – Própolis rijo

Outra situação que verificamos, foi a qualidade da criação, pois apesar de pouca, a mesma encontra-se compacta e bem alimentada, algo que anteriormente só era possível verificar nas colónias com maior vigor, estando as restantes com criação salteada, resultado das amplitudes térmicas entre a noite e o dia.

Figura 8 – Criação após 10 dias da colocação do poncho isotérmico

Relacionando alguns indicadores com outros, este aumento positivo na qualidade da criação pode estar relacionado com o alimento disponível para as abelhas se nutrirem 24 horas por dia, pois como sabemos, o mel frio não está disponível para as abelhas, sendo inclusive uma placa de frio constante, pois as abelhas não têm força suficiente para o aquecer e consumir, algo que só acontece com o aumento das temperaturas médias no início da primavera. Ao aumentarmos a temperatura média no ninho, reforçamos o sistema das abelhas, criando maior estabilidade biológica.

Voltando a relacionar novos indicadores, possuo amigos apicultores que possuem abelhas em zonas com potencial apícola junto ao litoral, zonas com baixas amplitudes térmicas. O que é certo é que a taxa anual de perda de colónias é inferior à verificada no interior do país, ainda que as colónias destes colegas sejam menos “mimadas” e possuam taxas de varroa superiores.

 

PLACAS TÉRMICAS

Fruto da viagem ao país Vasco, outra das melhorias ao nível da eficiência térmica foi o uso pela primeira vez das placas térmicas para redução do volume do ninho e isolamento da temperatura gerada pelas abelhas, junto com o poncho térmico.

Figura 9 – Placas térmicas em colmeia reversível

Estas placas térmicas redutoras são usadas por diversos apicultores há muitos anos, que, apesar de sabermos da sua utilidade e bons resultados, sempre encaramos como um investimento muito elevado, dado o número de colónias que possuímos na nossa exploração e a limitação de materiais que podem ser usados com este fim, sendo a sua maioria muito caro.

Retirando a ideia do apicultor profissional Koldo Belasko, que isola as placas de roofmate com fita de alumínio de forma a conservar intactas as placas ao aumenta a dificuldade das mesmas serem roídas pelas abelhas, decidimos mandar fazer placas de esferovite (custam 2 vezes menos que o roofmate), que após alguns ensaios de revestimento com diversos materiais (fita de alumínio e fita cola normal, decidimos isolar com fita cinzenta americana em formato jumbo.

Figura 10 – Placas térmicas de esferovite revestida com fita de alumínio

 

Figura 11 – Revestimento de esferovite com fita cinzenta americana

 

Figura 12 – Placas térmicas de esferovite revestidas com fita americana

 

Figura 13 – Placas térmicas de esferovite revestidas com fita americana

Desta forma foi possível reduzir custos, garantindo de uma forma simples e prática o aumento da eficiência térmica das nossas colónias, que, agregando o pocho isotérmico, nos irá garantir os resultados que procuramos… maior estabilidade biológica nas nossas colónias de abelhas, que no meu entender é um dos pilares essenciais para o sucesso de uma exploração apícola.

ANTECIPAÇÃO DE PROBLEMAS

Depois de tudo o que foi descrito, podemos imaginar que de facto iremos conseguir excelentes resultados ao ganharmos eficiência térmica nas nossas colónias de abelhas, contudo, de igual forma como acontece nas novas construções de casas para habitação, que por norma levam “capoto”, é muito comum verificar condensação de água nas janelas, acusando défice de ventilação.

Figura 14 – Placas térmicas em colónia de 5 quadros de abelhas

O mesmo pode acontecer nas colmeias, sendo de todo importante garantir que os estrados tenham uma grelha de ventilação (faixa de rede de 5cm no primeiro terço do estrado), algo que desde sempre usamos nas nossas colmeias não só para ventilação durante as transumâncias, como também para deixarmos de ter quadros com bolor.

Não existindo ventilação, podemos garantir que será um risco investir em isolamento térmico, pois as abelhas sofrem mais com o excesso de humidade do que com o frio.

NOTAS FINAIS

Este tema não é novidade e todos sabemos da sua importância, contudo as soluções que criarmos e na forma como o fazemos é que está a grande diferença.

Figura 15 – Placas térmicas e poncho isotérmico em colmeia reversível

Há inclusivamente fabricantes de colmeias que já tentaram fabricar colmeias com um revestimento exterior de cortiça ou até mesmo usar tintas com cortiça, contudo os resultados não foram os melhores.

Há de facto espaço para investimento em busca de uma colmeia ou técnicas que garantam eficiência térmica, contudo, temos que ter em mente que o resultado destas colmeias ou produtos não tornem economicamente inviável a sua compra pelos apicultores, tendo como resultado final a falência destas empresas que investem em novas soluções.

Deixo o desafio, contudo, a primeira coisa a fazer será uma prospeção de quanto o apicultor comum está disposto a pagar mais por estas colmeias, partindo do princípio que estas colmeias poderão ter menor durabilidade.

Que tal o desenvolvimento de placas que permitam fabricar colmeias com um exterior em EPS de alta densidade (>100km/m3) e interior em madeira e pranchetas térmicas em vez dos comuns e pouco eficientes platex de 5mm?

Por fim, além da referida estabilidade biológica, esperamos que como resultado do aumento da temperatura interna dos ninhos, as abelhas não tenham de esperar pelo aumento da temperatura média no inicio da primavera para aumentar o número de quadros de criação, ainda que isso careça de um rigoroso acompanhamento das suas reservas alimentares, diminuindo o risco de morte por fome.

João Tomé

…um apicultor, pela apicultura…

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